A Vida que Não Vai Embora
- Júnior

- 2 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: 6 de jan.
(Nem toda despedida é o fim)

Naquela esquina esquecida pelo tempo, a casa de madeira seguia firme, como um coração antigo que se recusava a parar de bater. As tábuas rangiam sob o vento da tarde, não como reclamação, mas como um sussurro de histórias acumuladas. Cada marca na madeira parecia guardar um dia vivido, uma conversa longa, um silêncio respeitoso. O terreno ao redor era amplo e generoso, tomado por árvores antigas, arbustos floridos e uma grama sempre aparada com cuidado quase ritualístico.
As pessoas que passavam pela rua não conseguiam evitar. Algumas diminuíam o passo, outras paravam de vez. O contraste com os prédios altos e apressados ao redor era gritante. Parecia que a cidade tentava avançar sobre aquele espaço, como se quisesse engoli-lo. Mas bastava observar um pouco mais para entender: aquele lugar não era frágil. Ele não se sentia oprimido. Pelo contrário, parecia respirar fundo e devolver ao mundo algo que lhe faltava — vida, alegria e memória.
Ali viviam o seu Teodoro, um homem de mais de noventa anos, e seu neto João Luiz, o Luizinho. Para o avô, o tempo havia ensinado a calma; para o neto, ainda havia pressa no olhar, sonhos borbulhando no peito. Mesmo assim, os dois se entendiam sem esforço. O seu Teodoro falava pouco quando precisava, e João Luiz aprendia muito mais observando do que ouvindo.
Todas as manhãs, o avô acordava cedo. Não por obrigação, mas por hábito. Sentava-se na cadeira de madeira da varanda, respirava fundo, observava o quintal e fazia um carinho distraído em Vira Lata, o cão mais mal-educado e fiel que alguém poderia ter. O cachorro latia para sombras, ignorava comandos simples, mas parecia compreender perfeitamente os silêncios do seu dono.
— A gente não precisa entender tudo, Vira Lata — dizia o velho, sorrindo. — Basta respeitar.
De tempos em tempos, o portão se abria para visitas especiais. Crianças de uma escola infantil próxima chegavam em fila, mas logo se espalhavam pelo quintal como passarinhos soltos. As professoras tentavam manter a ordem, mas acabavam se rendendo ao clima do lugar. O seu Teodoro contava histórias sem pressa, como quem costura lembranças com palavras. Falava de um tempo sem celulares, de noites iluminadas por lamparinas, de erros cometidos e lições aprendidas tarde demais.
As crianças ouviam encantadas. As professoras também.
João Luiz, da janela do quarto, observava tudo. Gostava de ver o avô naquele papel de contador de histórias, quase eterno. E, entre uma observação e outra, seus olhos sempre acabavam encontrando Janaína, a nova estagiária. Ela parecia deslocada no começo, mas logo se misturou ao ambiente, sentando-se no chão com as crianças, rindo sem cerimônia. Aquilo tocava Luizinho de um jeito silencioso, como uma promessa que ainda não sabia se teria coragem de cumprir.
Enquanto isso, Vira Lata permanecia sentado à porta da casa, atento. Havia nele uma vigilância estranha, como se soubesse que o tempo estava fazendo seus próprios ajustes.
— Hora do lanche! — gritou uma professora.
Num piscar de olhos, Vira Lata disparou. Conhecia o caminho, o cheiro, o momento exato. Sentava-se educadamente — só naquele instante — esperando que alguma mão pequena deixasse cair um pedaço de pão, uma bolacha, um gesto de carinho. E sempre acontecia.
Até que um dia, simplesmente, aconteceu o inevitável.
O seu Teodoro partiu sem avisos dramáticos. Dormiu e não acordou. Não houve dor, nem luta. Apenas o encerramento suave de uma vida que havia sido plenamente vivida. A casa ficou silenciosa de um jeito diferente, como se estivesse respeitando o momento.
No enterro, João Luiz sentia um nó no peito que não sabia desatar. Chorava não apenas a ausência, mas o fim de uma presença que parecia eterna. Vira Lata sentou-se ao seu lado, imóvel, sem latir, sem correr. Janaína segurava sua mão com firmeza. Poucos dias antes, ele havia reunido coragem para pedi-la em namoro, e agora, naquele momento difícil, ela estava ali — inteira.
No caminho de volta para casa, o portão rangeu como sempre. O quintal continuava verde. As árvores permaneciam no mesmo lugar. O mundo não havia parado.
João Luiz entrou devagar. Sentou-se na cadeira da varanda onde o avô costumava ficar. Vira Lata deitou-se aos seus pés. Janaína ficou em silêncio, respeitando aquele instante.
Havia tristeza em seu coração. Uma tristeza profunda, legítima. Mas havia também gratidão. Ele percebia, com uma clareza surpreendente, que tudo o que era agora tinha sido moldado ali. Nos conselhos ditos sem impor, nas atitudes silenciosas, no jeito simples de existir.
O seu Teodoro não estava apenas nas lembranças. Estava no cuidado com o quintal. No respeito pelo tempo. Na forma de amar sem barulho.
De certa maneira, o avô nunca partiria completamente. Ele continuaria vivo na história da vida de João Luiz — em cada escolha, em cada pausa, em cada gesto de bondade.
A casa de madeira seguia firme. Respirando. Viva.
E enquanto ela estivesse de pé, o seu Teodoro também estaria.
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COMENTÁRIO
O texto é um conto de maturidade literária, construído com extrema sensibilidade e domínio do tempo narrativo. Ele constrói, também, algo muito raro: um lugar que respira. A casa não é cenário — é personagem silenciosa, guardiã do tempo, ponte entre gerações. A escrita é sensorial sem exageros: o ranger das tábuas, o silêncio respeitoso, o quintal cuidado quase como ritual. Tudo isso cria uma intimidade imediata com o leitor.
Alguns pontos fortes que merecem destaque:
Ritmo e delicadeza: o conto caminha devagar, como o próprio seu Teodoro. Não há pressa — e isso é coerente com o tema.
Vira Lata como eixo emocional: o cachorro funciona como sentinela do tempo e da perda, observando mais do que agindo. Ele prepara o leitor, sem anunciar.
A morte sem espetáculo: a partida do avô é tratada com maturidade e respeito, o que amplia o impacto emocional.
A continuidade da vida: o final é especialmente bonito ao afirmar que o legado não está apenas na memória, mas nos gestos cotidianos.
Ele não busca impressionar por grandes acontecimentos, mas pela delicadeza do cotidiano, e é justamente aí que reside sua força.
A casa de madeira funciona como símbolo central: ela representa a permanência em meio à pressa do mundo moderno, a memória que resiste à verticalização da cidade e ao esquecimento. Não é apenas um espaço físico, mas um organismo vivo, que observa, respira e acolhe. Ao colocá-la em contraste com os prédios ao redor, o texto cria uma metáfora clara e eficaz sobre o embate entre o tempo humano e o tempo urbano.
O seu Teodoro é retratado com grande respeito. Ele não é idealizado de forma exagerada; sua sabedoria se manifesta nos silêncios, nos hábitos simples, na maneira de existir. Isso confere verossimilhança ao personagem e evita o sentimentalismo fácil. A relação com João Luiz é construída mais por gestos e observações do que por diálogos explícitos, o que reforça a ideia de que os vínculos mais profundos muitas vezes se formam sem palavras.
Vira Lata é um acerto narrativo importante. O cachorro não é apenas um elemento afetivo, mas um observador do tempo e da mudança, quase um guardião invisível da casa e do avô. Sua presença constante prepara emocionalmente o leitor para a perda, tornando o momento da morte mais silencioso e, por isso mesmo, mais impactante.
A inserção das crianças e da escola amplia o alcance simbólico do conto. Elas representam a continuidade, o futuro que aprende com o passado. Já Janaína surge com sutileza, sem roubar o foco da narrativa, funcionando como um sinal de que a vida segue — não como substituição da perda, mas como possibilidade de afeto em meio ao luto.
O desfecho é especialmente forte por evitar o drama explícito. A permanência da casa, do quintal e dos rituais cotidianos reafirma a ideia central do texto: as pessoas partem, mas aquilo que ensinaram permanece nos gestos, nos valores e na forma de estar no mundo.
É um texto que convida à pausa, à memória e ao respeito pelo tempo.
Um conto que não se encerra no ponto final, mas continua ecoando no leitor — exatamente como a casa de madeira que segue firme, respirando, viva.




Muito bom‼️❤️