Lua Sempre Volta
- Júnior

- 1 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de jan.

Naquela manhã de céu lavado, Clara saiu de casa com o coração em descompasso e uma guia enrolada no pulso. Lua, sua cachorra, caminhava ao lado com o rabo atento, como se sentisse que o dia pedia cuidado extra. Havia meses que Clara tentava reaprender a respirar depois de perdas que não cabiam em explicações. Lua ficara. Sempre ficara.
O parque estava quase vazio. As árvores altas filtravam a luz em manchas suaves no chão, e o silêncio tinha um peso confortável. Clara sentou-se no banco de madeira, deixou a guia frouxa e fechou os olhos por um instante. Foi quando ouviu o estalo seco — um trovão fora de hora — e o céu decidiu se rasgar.
Lua se assustou.
O barulho do portão metálico, o cheiro súbito de chuva, um grupo de ciclistas passando rápido demais. Em segundos, a guia escorreu da mão de Clara. O nome de Lua virou um grito preso na garganta. A cachorra disparou pela trilha, e o mundo ficou estreito e barulhento.
Clara correu. Escorregou. Levantou. O parque parecia outro, labirinto de verdes e sombras. Chamava, chamava, e só a chuva respondia. O coração batia como se quisesse sair correndo também. Pensou nas noites em que chorou no chão do quarto e Lua encostou o focinho frio em sua mão. Pensou que não aguentaria perder de novo.
Horas passaram como se fossem um fio esticado demais. A chuva virou garoa. O celular sem sinal. O medo, pesado, começou a doer nos ossos. Clara se sentou no chão molhado, encostou as costas numa árvore e respirou como pôde. “Ela vai voltar”, disse para ninguém, com uma fé improvisada.
Foi então que ouviu — primeiro um som pequeno, quase um soluço — depois um latido conhecido, quebrado de alegria. Clara se levantou num pulo. Entre os arbustos, surgiram olhos atentos, orelhas baixas, patas enlameadas. Lua avançou devagar, como quem pede desculpa e perdão ao mesmo tempo. Quando se encontraram, não houve guia, não houve palavra: só o abraço desajeitado de uma jovem ajoelhada e uma inteireza de amor.
Voltaram para casa sob um céu que já clareava. Clara tomou banho quente; Lua secou ao sol da varanda. À noite, dividiram o sofá. Clara percebeu que o medo ainda existia, mas agora tinha um contorno — e contornos podem ser tocados. Lua suspirou, pesada e tranquila, e Clara entendeu que finais felizes às vezes não são fogos de artifício. São a certeza silenciosa de que, mesmo quando tudo parece escapar, há quem saiba o caminho de volta.
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Análise do texto
O conto constrói uma narrativa contemporânea e intimista, centrada no vínculo afetivo entre uma jovem e sua cachorra, usando um episódio aparentemente simples — a fuga e o reencontro — como metáfora para perdas mais profundas e processos internos de cura.
1. Tema e sentidos centrais
O tema principal é o amor como permanência, mesmo diante do medo e da instabilidade. A relação entre Clara e Lua ultrapassa a ideia de companhia animal: Lua funciona como âncora emocional, presença silenciosa que sustenta a protagonista em um momento de fragilidade existencial.
A fuga da cachorra simboliza a ameaça da perda total, enquanto o retorno representa a possibilidade de reconstrução e esperança.
2. Construção da tensão
A tensão narrativa é bem dosada. Ela surge rapidamente (o susto, a guia solta, a corrida), cresce com o cenário que se transforma — o parque que vira labirinto — e atinge o auge na espera silenciosa e desesperada.
O texto evita exageros dramáticos e aposta na ansiedade contida, o que torna o medo mais crível e próximo do leitor.
3. Personagem e interioridade
Clara é construída mais por sensações do que por dados objetivos. O leitor conhece sua dor não por explicações diretas, mas por lembranças breves, gestos e pensamentos fragmentados. Isso reforça o tom contemporâneo e cria empatia imediata.
Lua, por sua vez, não é humanizada excessivamente; sua presença é expressa por ações simples, porém carregadas de significado, o que mantém a verossimilhança.
4. Linguagem e estilo
A linguagem é simples, sensível e visual, com frases curtas nos momentos de tensão e descrições mais suaves nos instantes de calma. O uso da chuva, da luz filtrada e do silêncio do parque contribui para um clima quase cinematográfico.
O texto aposta em imagens concretas (guia, banco, lama, latido) para expressar emoções abstratas, o que fortalece o impacto emocional sem cair no sentimentalismo excessivo.
5. Desfecho
O final feliz é contido e maduro. Não há grande discurso nem explicação moralizante. O reencontro se resolve no gesto — o abraço — e na compreensão silenciosa de que o medo ainda existe, mas agora é suportável.
A última frase sintetiza bem a proposta do conto: finais felizes podem ser discretos, mas profundamente humanos.




Gostei 😃 👏 Parabéns pelo texto.