top of page

O Jogo Continua

  • Foto do escritor: Júnior
    Júnior
  • 1 de jan.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 6 de jan.


No terreno aberto, o vento atravessa o espaço enquanto duas meninas jogam bola. O riso é alto, quase excessivo, como se quisesse ocupar tudo. A bola bate no chão, foge, volta. O mundo, por enquanto, cabe ali.

Então a bola para.

Perto, caída na grama, uma boneca de pano. Olhos costurados, corpo gasto, abandonado. As meninas veem ao mesmo tempo. Correm. Não há acordo, só urgência.

Cada uma segura uma extremidade. Primeiro, um puxão curto. Depois outro, mais forte. O riso some. O silêncio pesa. O pano estica até não poder mais. Rasga. O som é seco, definitivo.

A boneca se parte. Um braço de um lado, o corpo do outro. As meninas ficam imóveis por um instante, encarando o que fizeram. Não há choro, não há pedido de desculpa. Apenas a certeza muda de que algo terminou ali.

Então a bola chama de novo. Ela rola devagar, quase tímida, como se pedisse continuidade. Uma das meninas a chuta, sem pensar. A outra corre, responde, devolve. O ritmo retorna, mais forte que antes. O riso reaparece, ocupa o espaço, cobre o silêncio deixado pela boneca.

Os pedaços ficam para trás, imóveis, absorvidos pela grama. À frente, a bola segue indo e voltando, insistente. As meninas brincam como se o mundo precisasse continuar — e continua.

​-o - o - o - o - o - o - o -

 

Comentando

​​

O texto constrói uma narrativa breve e concentrada sobre ruptura e continuidade, usando poucos elementos simbólicos e um ritmo cuidadosamente controlado.

1. Estrutura e ritmo

A progressão é clara: plenitude → interrupção → ruptura → retomada. O início expansivo (vento, riso, bola em movimento) cria um mundo fechado e suficiente. A parada da bola funciona como eixo estrutural: suspende o fluxo e abre espaço para o conflito. Após o rasgo da boneca, o retorno do jogo não restaura o estado inicial, mas estabelece um novo equilíbrio — semelhante, porém atravessado pela perda.

2. Objetos como núcleos simbólicos

A bola representa o movimento contínuo, o tempo que vai e volta, a vida que insiste. A boneca, ao contrário, carrega a ideia de cuidado, projeção afetiva e permanência. Quando rasga, não pode ser recomposta. A oposição entre os dois objetos sustenta o sentido do texto: o que se quebra não retorna; o que se move continua.

3. Silêncio e contenção emocional

O texto evita explicações psicológicas explícitas. Não há choro, diálogo ou julgamento moral. Esse silêncio amplia o impacto do gesto e confere maturidade à narrativa: o leitor é levado a perceber a gravidade do acontecimento justamente pela ausência de reação dramática.

4. Ponto de vista e linguagem

A linguagem é econômica, precisa, quase neutra, o que reforça o caráter observacional do texto. As frases curtas e os verbos concretos (“puxa”, “rasga”, “rola”) mantêm o foco na ação, não na interpretação. Isso aproxima o leitor da experiência bruta do acontecimento.

5. Sentido global

O texto afirma que a vida não se organiza em torno da reparação, mas da continuidade. A perda não é elaborada naquele momento; ela é deixada para trás, literalmente absorvida pela grama. A brincadeira que segue não apaga o ocorrido, mas mostra que seguir adiante é um gesto quase automático, anterior à reflexão.

Em conjunto, o texto funciona como uma alegoria mínima sobre crescimento: algo se rompe sem intenção, deixa uma marca silenciosa, e mesmo assim o mundo segue — não porque nada aconteceu, mas porque continuar é inevitável.

Comentários


bottom of page