O Vira Lata da Varanda
- Júnior

- 4 de fev.
- 3 min de leitura
(A "Vida que Não Vai Embora" no olhar do Vira Lata)

Eu sou o Vira-Lata.
Não sei dizer exatamente quando cheguei aqui. Sei apenas que, desde que me lembro, essa casa sempre foi meu mundo — e o seu Teodoro, o centro dele.
A casa range quando o vento passa, e eu entendo esses sons. Madeira fala. Quintal fala. Gente quase nunca escuta. O seu Teodoro escutava. Sentava na cadeira da varanda, coçava atrás da minha orelha esquerda — sempre a esquerda — e ficava quieto. Eu ficava junto. Não precisava mais nada.
A casa é velha, mas não é cansada. Ela cheira a sol, a planta molhada, a café fraco. Quando as pessoas passam na rua, desaceleram. Algumas param. Eu rosno para umas, ignoro outras. O seu Teodoro dizia que nem todo mundo precisa ser entendido. Só respeitado. Eu aprendi isso sem discutir.
O menino… não, o rapaz… João Luiz. Para mim, sempre foi Luizinho. Ele cresceu aqui, mas demorou a perceber. Ficava na janela olhando o mundo, achando que o mundo estava lá fora. Eu sabia que não. O mundo estava aqui, entre a sombra da mangueira, o rangido do portão e o velho que conversava comigo como se eu respondesse com palavras.
E eu respondia. Só não com a boca.
Quando as crianças chegavam, eu ficava alerta. Criança é imprevisível, mas cheira a verdade. Elas se espalhavam pelo quintal, riam alto, pisavam onde não deviam. O seu Teodoro contava histórias. Eu ficava sentado perto. Protegendo. Não as crianças — o tempo. Porque enquanto ele falava, o tempo ficava quieto, obediente.
As professoras riam mais que os pequenos. Eu observava tudo. Especialmente a moça nova. Janaína. Ela chegou diferente. Não tinha cheiro de pressa. Sentava no chão. Olhava o velho nos olhos. Isso importa. O Luizinho olhava ela como quem tropeça por dentro. Eu percebi antes dele. Sempre percebo.
— Hora do lanche!
Essa frase eu entendo muito bem.
Eu corria. Não por fome. Por esperança. Sempre sobra alguma coisa quando o mundo está distraído. E o mundo, ali, vivia distraído de felicidade.
Mas o cheiro do tempo mudou.
O seu Teodoro começou a ficar mais quieto. Não triste. Quieto diferente. Como quando o vento para antes da chuva. Ele me fazia carinho mais devagar. Às vezes ficava olhando o quintal como quem se despede sem avisar.
No dia em que ele não acordou, eu soube antes dos outros. O silêncio estava pesado demais. Deitei ao lado da cama. Esperei. Esperei muito. Ele não veio.
No enterro, eu sentei ao lado do Luizinho. Não chorei. Cães não choram como gente, mas a dor pesa igual. Janaína segurava a mão dele. Fiz questão de encostar meu corpo na perna do menino. Agora era minha vez de ensinar a ficar em pé quando tudo parece cair.
Voltamos para casa. O portão rangeu. A casa respirou. O quintal continuava vivo. Isso é importante.
Luizinho sentou na cadeira da varanda. Eu deitei aos seus pés. Janaína ficou perto, sem falar. Pessoas que sabem amar entendem o valor do silêncio.
O seu Teodoro não foi embora. Eu sei.
Ele está no jeito que o menino respira fundo antes de decidir.
Está na forma como o quintal ainda é cuidado.
Está no respeito pelo tempo, pelas pausas, pelas histórias que não precisam ser contadas de novo para continuarem verdadeiras.
Eu continuo aqui. Sentado à porta. Observando.
Esperando o lanche que agora vem diferente.
Esperando a vida seguir — porque ela sempre segue.
E enquanto essa casa estiver de pé, enquanto alguém escutar o vento, enquanto houver silêncio com sentido, o seu Teodoro ainda estará aqui.
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Comentário sobre o texto
O conto “O Vira-Lata da Varanda” constrói uma narrativa delicada e profunda a partir de um ponto de vista raro: o do cão que observa o tempo, as pessoas e o silêncio. Com linguagem simples e poética, o texto transforma gestos cotidianos em matéria de afeto e memória. A relação entre o Vira-Lata e seu Teodoro é apresentada sem sentimentalismo excessivo, o que torna o luto ainda mais verdadeiro. O espaço da casa funciona como personagem viva, guardando vozes, cheiros e presenças. O silêncio é tratado como forma de comunicação e resistência ao esquecimento. O conto fala sobre perda, permanência e continuidade da vida. Ao final, o leitor compreende que algumas pessoas não vão embora: permanecem nos hábitos, nos cuidados e no modo de estar no mundo. É um texto sensível, maduro e profundamente humano.




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