Eu Vim Pra Dizer Que Te Amo
- Júnior

- 31 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de jan.

A cidade era pequena o bastante para que as histórias se cruzassem antes das pessoas. As ruas tinham nomes repetidos em lembranças, e os fins de tarde eram sempre iguais, como se o sol tivesse feito um acordo com aquele lugar. Foi ali que Renata e Carlos cresceram, dividindo o chão rachado da praça, os cadernos rabiscados e o silêncio confortável de quem não precisa explicar tudo.
Renata amava Carlos desde quando amar ainda não tinha nome. Era um amor quieto, desses que se aprende a carregar sem barulho. Carlos, por sua vez, gostava de Renata com a solidez de quem escolhe ficar perto: amigo, confidente, porto. Ele sabia do sentimento dela. Sabia desde sempre. E, por isso mesmo, nunca prometeu o que não podia cumprir. Não iludia, não adiava a verdade. Havia cuidado nisso.
Dona Nininha gostava de Carlos como se o tivesse parido. Talvez porque o menino tivesse ficado órfão cedo demais; talvez porque ela tivesse espaço de sobra no coração. Chamava-o para o café, para consertar a porta, para ouvir histórias que se repetiam com pequenas variações. Dizia que ele era neto, e ponto. Carlos aceitava — precisava.
Com o tempo, a cidade começou a apertar. Para Carlos, não havia horizonte ali. Falava disso com Renata nas caminhadas longas, na beira da estrada, nos bancos de cimento da praça. Falava do desejo de ir embora, de estudar, de crescer, de ser alguém em um lugar maior. Renata ouvia. Sempre ouviu. Doía, mas não pedia que ficasse. Amar, para ela, era não amarrar.
A despedida foi simples, como tudo entre eles. Um abraço demorado demais para ser só amizade e honesto demais para ser outra coisa.
— Você pensa em voltar, um dia? — perguntou Renata, timidamente, quase num sussurro.
— Só se for pra dizer que te amo — respondeu Carlos.
Renata corou, não esperava tal resposta, Carlos sempre respeitara seu sentimento, sequer tocava nele.
— Não estou brincando — acrescentou, percebendo o desconforto da amiga.
Depois, a distância virou rotina: mensagens, ligações, risadas que atravessavam telas. A presença mudou de forma, não de intensidade.
Quando Dona Nininha morreu, a cidade pareceu encolher de vez. Renata tentou falar com Carlos. O telefone não completava. As mensagens não saíam. No velório, o cheiro das flores misturava-se ao vazio. Chorava a avó, chorava a ausência. Faltava alguém para segurar sua mão naquele instante em que o mundo pesa mais.
Foi então que Carlos apareceu, parado à porta, como se tivesse errado o tempo e acertado o lugar. O coração de Renata desacelerou só de vê-lo. Não precisaram de palavras. O alento veio inteiro.
Depois do enterro, sentados na varanda, Renata perguntou como ele soubera. Disse que tentou avisar, que não conseguiu. Carlos abaixou os olhos, confuso.
— Eu não sabia — respondeu. — Cheguei hoje. Me contaram quando entrei na cidade.
Renata franziu a testa.
— Então… por que você veio?
Carlos respirou fundo, como quem finalmente escolhe dizer o que vinha guardando.
— Eu vim pra dizer que te amo.
A cidade continuou pequena. Mas, naquele instante, coube tudo.
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Comentando
O texto é delicado, contido e profundamente humano. Ele trabalha menos com acontecimentos espetaculares e mais com o que não foi dito, o que é coerente com a história de Renata e Carlos desde a infância.
O maior acerto está na honestidade emocional dos personagens. Carlos não corresponde por impulso nem por culpa; ele respeita o sentimento de Renata justamente por não alimentá-lo. Isso dá maturidade ao conto e evita o romantismo fácil. Renata, por sua vez, ama sem exigência, sem barganha — um amor que aceita a espera mesmo sem promessa.
A cidade pequena funciona como metáfora de limite: para Carlos, ela aperta; para Renata, ela guarda. Essa diferença de relação com o mesmo espaço explica tanto a partida quanto a permanência do sentimento. Dona Nininha é o eixo silencioso que une os dois — sua presença afetiva legitima Carlos como parte da família e torna sua ausência no velório ainda mais dolorosa.
O final é forte porque não é apressado. A frase “Eu vim pra dizer que te amo” só funciona porque tudo antes foi feito de cuidado, silêncio e tempo. Não soa como reviravolta, mas como revelação amadurecida. O amor não nasce ali — ele chega, finalmente, no momento em que pode existir.
É um conto sobre tempo emocional, pertencimento e coragem tardia. E justamente por isso, fica.




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