Pedro e Méri
- Júnior

- 31 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 6 de jan.

Pedro Prado nunca teve chance contra a criatividade dos colegas. Bastava a professora fazer a chamada —— Pedro Prado?— Presente! — ele respondia, animado demais para alguém que sabia o que vinha a seguir.
— Olha o Homem-Aranha! — gritava alguém do fundo.— Cadê a teia? — completava outro, fazendo movimentos estranhos com o pulso.
Pedro ria. Ria alto. Ria como se aquilo fosse parte do espetáculo. Às vezes até fazia pose de herói, grudando a mão imaginária numa parede inexistente. Não ajudava em nada, mas ele gostava de ver os colegas sem saber se estavam zoando ou sendo zoado.
Já Méri… bem, Méri era outro universo.
Merijeine — tudo junto, sem hífen, sem espaço, sem misericórdia. Quando alguém lia seu nome completo em voz alta, sempre havia um segundo de silêncio. Depois vinha a comparação inevitável.
— Igualzinha à namorada do Peter Parker!— Então vocês são um casal? — perguntavam, rindo antes mesmo da resposta.
Méri ficava vermelha. Vermelha de verdade, da raiz do cabelo até a ponta da orelha. Baixava os olhos, fingia procurar algo na mochila, mesmo quando não havia nada ali além de cadernos e coragem em falta.
O problema (ou talvez não) é que Pedro tinha se mudado para a casa ao lado da dela fazia pouco tempo. E desde o primeiro dia, quando ele apareceu carregando caixas demais e derrubando metade no portão, Méri tinha percebido algo diferente: ele sorria para o mundo como se o mundo fosse um velho amigo meio desastrado.
— Oi! — ele disse, equilibrando uma caixa com o joelho. — Você mora aqui?
Méri assentiu.— Que bom! — ele continuou. — Eu também. Quer dizer… aqui do lado. Vizinho novo. Pedro.— M-Méri — ela respondeu, quase num sussurro.
Pedro sorriu ainda mais, como se aquele fosse o melhor nome que já tivesse ouvido na vida.
Na escola, as “teias do destino” começaram a se entrelaçar rápido demais para o gosto de Méri. Sempre que alguém gritava “Peter!” para provocar Pedro, outro alguém completava com “Mary Jane!”, olhando diretamente para ela. Pedro, achando tudo engraçadíssimo, começou a sentar ao lado dela na sala.
— Relaxa — dizia. — Se a gente já vai ser zoado mesmo, pelo menos fazemos isso juntos.
Em um trabalho em dupla sobre… aranhas (o destino definitivamente tinha senso de humor), Pedro resolveu levar a apresentação longe demais. Apareceu com um óculos escuro improvisado, falou sobre “poderes adquiridos após eventos traumáticos” e terminou dizendo:
— Moral da história: com grandes nomes vêm grandes zoações.
A sala explodiu em risadas. Méri queria desaparecer. Ao mesmo tempo, percebeu que, pela primeira vez, não estava sozinha no centro da piada.
Nem tudo era engraçado, claro. Houve dias em que os comentários machucaram mais do que deveriam. Dias em que Méri voltou para casa se perguntando por que um nome podia pesar tanto. Pedro percebeu esses silêncios. Estranhamente, ele — que falava demais — sabia quando ficar quieto.
Certa tarde, sentaram no muro que separava as casas. Pedro chutava pedrinhas no chão.— Sabe… — ele disse — se eu pudesse escolher um nome, não mudaria o meu.
Méri o olhou, surpresa.
— Sério?— Sério. Porque se não fosse ele, eu não teria conhecido você desse jeito estranho.
Méri sorriu. Pequeno, tímido, mas real.
No dia seguinte, alguém gritou no corredor:— Ei, casal Aranha!
Pedro respondeu na hora:— Cuidado, a gente gruda!
Méri riu. Pela primeira vez, riu alto.
E assim eles seguiram: entre piadas, silêncios, olhares trocados, zoações que doíam e outras que viravam histórias para contar depois. Se eram apenas vizinhos, amigos ou algo que ainda não tinha nome… ninguém sabia ao certo.
Nem mesmo eles.
O tempo passou — silencioso, inevitável, como passa para todo mundo. Pedro e Méri nunca se tornaram namorados. Não houve beijo cinematográfico no fim do corredor, nem declaração sob chuva, nem trilha sonora dramática. E, curiosamente, isso nunca pareceu faltar.
Eles se tornaram super amigos.
Pedro Prado, pasmem, cresceu… e não foi só no tamanho do sorriso. O garoto exageradamente descontraído virou modelo famoso, desses que estampam vitrines, capas e campanhas de várias grifes renomadas. Ainda era o mesmo Pedro: chegava atrasado, fazia piada no meio de entrevistas sérias e ria quando alguém, inevitavelmente, comentava:— Você já ouviu falar num tal de Peter Parker?
Merijeine também seguiu seu caminho. A menina tímida, que quase desaparecia quando liam seu nome em voz alta, hoje é uma jovem cientista promissora. Entre laboratórios, pesquisas e descobertas, ela aprendeu a falar com segurança — ainda calma, ainda doce, mas firme. E sempre que alguém sorria ao ouvir seu nome completo, ela apenas sorria de volta. Agora sabia exatamente quem era.
As agendas dos dois vivem cheias. Desfiles, viagens, congressos, experimentos, compromissos que se acumulam como se o mundo tivesse pressa demais. Mas, de vez em quando, acontece o improvável: uma folga coincide.
Nessas raras brechas do tempo, eles estão juntos. Sentados em algum lugar simples, rindo de coisas antigas, relembrando as aventuras da adolescência, o bullying estranho que virou piada interna, os apelidos inevitáveis, os dias difíceis e os dias absurdamente engraçados.
— Você lembra quando acharam que a gente ia salvar o mundo? — Pedro brinca.— De certa forma… — Méri responde, sorrindo — a gente salvou o nosso.
E assim, presos não por teias, mas por histórias compartilhadas, Pedro e Méri seguem ligados. Não como casal. Não como heróis. Mas como duas pessoas que cresceram juntas nas teias curiosas do destino — e que, mesmo depois de tudo, ainda se reconhecem no riso um do outro.
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COMENTANDO O TEXTO
O texto constrói um comentário sensível e bem-humorado sobre identidade, amadurecimento e afeto, usando o nome — algo aparentemente banal — como ponto de partida simbólico. Mais do que uma piada recorrente, os nomes funcionam como marcas impostas pelo olhar do outro, antecipando julgamentos e expectativas antes mesmo que os personagens possam se apresentar ao mundo como realmente são.
Nesse sentido, a narrativa mostra como Pedro e Méri aprendem, cada um à sua maneira, a negociar com essas marcas: ele, transformando a exposição em riso; ela, atravessando o silêncio até encontrar sua própria voz. O amadurecimento dos dois não apaga o passado, mas o ressignifica, revelando que crescer não é deixar de ser afetado, e sim aprender a lidar com aquilo que nos atravessa.
Ao recusar um desfecho romântico tradicional, o texto reforça a força dos vínculos que não precisam ser definidos para existir. A amizade entre Pedro e Méri se sustenta no tempo, na memória compartilhada e no reconhecimento mútuo — prova de que algumas relações são profundas justamente porque escapam das classificações fáceis.




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