Sem Pedir Licença
- Júnior

- 31 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de jan.

Elas caminham juntas toda quarta-feira. Não combinam. Acontece.
A mesma rua, o mesmo horário, a mesma pressa contida de quem não tem para onde ir com urgência.
Uma carrega uma bolsa grande demais. A outra reclama do corpo como quem fala do tempo. Nenhuma delas se acha bonita. Também não dizem o contrário. O assunto nunca aparece.
A mulher surge no meio do fluxo. Vestido vermelho. Bolsa pequena. Passos certos. Não anda rápido. Não desacelera. Não se desculpa.
A rua muda de tom.
— Você viu? — diz uma, baixo. A outra viu antes da pergunta. Viu no reflexo da vitrine. No jeito como as pessoas olham e depois desviam. Viu no desconforto breve, quase vergonhoso.
— Vi.
A mulher segue. Não olha para trás. Não por desdém. Por economia. Ela parece saber onde termina o próprio corpo.
Tentam voltar à conversa. Preço das coisas. Chuva que não cai.
Nada encaixa.
— Será que ela percebe?— O quê?— Que todo mundo olha.
A resposta demora.
— Acho que sim.— E?— E continua andando.
Viraram a esquina. A mulher já não está ali.
O espaço fica estranho por alguns segundos, como depois de um som alto.
Elas seguem. Agora mais atentas ao próprio passo. Aos ombros curvados. À bolsa que pesa demais. Nenhuma diz nada.
Talvez beleza seja isso: não pedir licença para existir.
Comentando
Aqui vai uma leitura temática do texto, organizada pelos eixos sugeridos — beleza, gênero e olhar social — com atenção à forma e aos silêncios que o texto constrói.
1. Beleza como perturbação do cotidiano
A beleza, no texto, não aparece como elogio nem como atributo fixo. Ela surge como evento: algo que interrompe o fluxo normal da rua e da conversa.
A mulher de vestido vermelho não é descrita como “bonita” — e isso é crucial. O efeito que ela causa não vem de uma avaliação estética explícita, mas da desestabilização:
“A rua muda de tom.”
A beleza aqui não consola nem agrada; ela desloca. Obriga os outros corpos a se perceberem. Depois que ela passa, nada volta exatamente ao lugar — nem a conversa, nem o jeito de andar, nem o peso da bolsa.
No final, a definição se fecha:
“Talvez beleza seja isso: não pedir licença para existir.”
Ou seja: beleza não é ser aceita, mas não negociar a própria presença.
2. Gênero e a pedagogia do corpo feminino
O texto é atravessado por uma experiência muito específica de gênero: mulheres aprendem, desde cedo, a pedir licença com o corpo.
As duas caminhantes:
reclamam do corpo,
carregam bolsas grandes,
andam com “pressa contida”,
têm ombros curvados.
Nada disso é dito como escolha. É hábito. Condicionamento.
A mulher do vestido vermelho, por contraste:
carrega pouco,
ocupa o ritmo da rua sem acelerar nem ceder,
não se desculpa.
Ela parece ter aprendido algo que as outras não aprenderam — ou desaprendido algo que lhes foi imposto:
“Ela parece saber onde termina o próprio corpo.”
Isso é profundamente político. Saber onde o corpo termina é recusar a ideia de que ele deve ser reduzido, encolhido, explicado ou compensado.
3. O olhar social: ver, desviar, vigiar
O texto constrói o olhar como algo incômodo, quase vergonhoso:
“No jeito como as pessoas olham e depois desviam.”
Não é um olhar admirado nem agressivo. É um olhar que denuncia conflito:
querem olhar,
sabem que não deveriam,
não sabem o que fazer com o que veem.
As duas protagonistas também participam disso. Elas olham. Comentam. Se perguntam se a mulher percebe.
E a resposta é devastadora na sua simplicidade:
— E?— E continua andando.
Perceber o olhar não leva à submissão nem à performance. Leva à continuidade. Isso quebra a lógica do controle social, que espera que o corpo observado responda — com vergonha, ajuste, recuo.
4. O efeito residual: quando o outro muda você
Depois que a mulher desaparece, o texto não termina. Pelo contrário: o que importa é o depois.
“O espaço fica estranho por alguns segundos, como depois de um som alto.”
Esse é o verdadeiro impacto da beleza: ela não pertence a quem a carrega, mas a quem fica. As duas mulheres seguem diferentes:
mais atentas ao próprio corpo,
mais conscientes do peso,
mais silenciosas.
Não há catarse. Não há transformação heroica. Apenas um deslocamento interno — pequeno, incômodo, duradouro.
5. Síntese
O texto propõe uma ideia de beleza que é:
ética, não estética,
postural, não decorativa,
existencial, não relacional.
Beleza não é ser vista — é não se organizar em função do olhar. Não é chamar atenção — é não pedir desculpa por ocupar espaço.
E talvez por isso ela incomode tanto.




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