Sussurro Descuidado
- Júnior

- 31 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 31 de jan.

Roberto chegava antes de qualquer som. Ria alto, gesticulava demais, ocupava os espaços como se o mundo fosse um palco improvisado. Para quem via de fora, era impossível não notá-lo. Para quem olhava com mais cuidado, era impossível não perceber o exagero como um pedido silencioso de atenção.
Lara via isso — e se incomodava. Não ia com a cara dele justamente por aquele jeito espalhafatoso demais, intenso demais, rápido demais. Sonhadora, sim, mas com os pés firmes no chão, ela acreditava no romantismo que amadurece com o tempo, não naquele que atropela sentimentos e chama isso de paixão.
Ela andava quase sempre com as amigas, sorrindo. Um sorriso fácil, constante. As amigas implicavam:— Você vive sorrindo assim… vão pensar que você é fora da ideia.
Lara sorria ainda mais ao ouvir isso. Achava engraçado como as pessoas desconfiavam da leveza, como se alegria fosse sinônimo de falta de juízo. Para ela, sorrir era uma escolha consciente.
Naquela tarde, ao se despedir das amigas, Lara caminhava sozinha. Já estava quase descendo o meio-fio para atravessar a rua quando o ronco de uma moto cortou o ar e parou bruscamente bem à sua frente. O susto foi imediato. O coração disparou, o corpo recuou. Ela estava pronta para explodir.
— Sorte minha que você estava passando por aqui — disse Roberto.
O tom não era o que ela esperava. Não havia arrogância, nem graça forçada. Havia algo quebrado ali. Tristeza. E, ao mesmo tempo, um alívio quase tímido, como se aquela coincidência tivesse salvado o dia dele.
Lara não respondeu na hora. Apenas atravessou a rua quando o sinal abriu, levando consigo a sensação incômoda de que, pela primeira vez, Roberto tinha sido silencioso dentro dela.
Dias depois, ele apareceu de novo. Menos barulho. Menos pressa.— Vamos à praia? — perguntou, quase simples demais para quem era. Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.— Você leva o sorriso — completou ele — eu levo o resto.
Ela riu. Contra a própria vontade.
E combinaram.
No dia marcado, Roberto chegou quase no meio da tarde para buscá-la em casa. Lara subiu na moto com o vento morno anunciando o que estava por vir. Não houve exageros no caminho. Nenhuma piada alta. Apenas o som da rua ficando para trás.
Na praia, sentaram-se sobre uma toalha estendida na areia, protegidos por um guarda-sol torto, desses que parecem lutar contra o vento. Conversaram sem pressa. Sobre coisas pequenas. Sobre nada. Sobre tudo. O mar fazia seu papel de testemunha silenciosa.
Foi então que Roberto falou, olhando para o horizonte:— Faz muito tempo que eu não sentia essa paz.
Lara virou o rosto para ele, surpresa. Não parecia uma frase ensaiada. Parecia verdade. Daquelas que escapam antes que a gente pense se deve ou não dizer.
O celular de Roberto tocou, quebrando o momento. Lara se preparou para ouvir algo pesado, guitarras altas, um hard rock qualquer. Mas o que surgiu foi diferente. Uma melodia suave, quase melancólica. Careless Whisper preenchendo o ar salgado.
Ela sorriu, agora diferente.— Não era isso que eu esperava — comentou.— Quase ninguém espera — respondeu ele, desligando o celular, um pouco sem graça.
Ficaram ali. O sol descendo devagar, o vento brincando com o cabelo dela, o silêncio confortável entre uma frase e outra. Algo estava acontecendo. Não de forma explosiva. Não inconsequente. Mas do jeito que Lara sempre acreditou que o amor deveria ser: calmo, inesperado, real.
Timidamente, quase sem jeito, Lara reclina a cabeça no ombro de Roberto.
Roberto, pela primeira vez, não precisava chamar atenção. Lara, pela primeira vez, não sentia vontade de ir embora.
E ali, ambos entenderam que alguns encontros não gritam — apenas ficam.
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NOTA: Careless Whisper é uma música romântica de George Michael.
Análise Textual
O texto constrói sua força a partir do contraste. Roberto e Lara são apresentados como opostos não apenas em personalidade, mas em ritmo: ele ocupa, acelera, faz barulho; ela observa, escolhe, permanece. Essa oposição inicial cria tensão narrativa e prepara o terreno para a transformação silenciosa que sustenta a história.
A linguagem é econômica e sensorial, marcada por imagens simples — o ronco da moto, o guarda-sol torto, o vento no cabelo, a música inesperada — que funcionam como símbolos de transição emocional. Não há excesso de descrição: cada elemento aparece quando tem função afetiva, reforçando a ideia de que o essencial acontece nos intervalos.
O ponto de virada não é um conflito explícito, mas uma mudança de tom. Roberto desacelera; Lara, em vez de recuar, fica. O texto evita o romance impulsivo e aposta numa afetividade madura, em que o vínculo nasce da escuta e do silêncio compartilhado.
O final reafirma essa escolha estética e temática ao recusar grandes declarações. Ao afirmar que “alguns encontros não gritam — apenas ficam”, o conto fecha em coerência com sua proposta: valorizar o que se instala devagar, sem espetáculo, mas com permanência.
Sinopse
Roberto sempre chega antes de qualquer som. Exageradamente extrovertido, ocupa os espaços como quem teme desaparecer no silêncio. Lara, ao contrário, acredita na calma, na delicadeza dos sentimentos que não se impõem. Sonhadora com os pés no chão, ela desconfia de tudo que parece rápido demais — inclusive dele.
Quando um encontro inesperado os coloca frente a frente, algo se desloca. O homem barulhento revela pausas. A mulher que observa à distância se permite ficar. Entre uma moto que corta a cidade, uma tarde de praia protegida por um guarda-sol torto e uma música suave tocando onde se esperava ruído, nasce um vínculo que não grita, não atropela, não promete.
Sussurro Descuidado é uma história sobre o que acontece quando as defesas baixam, o ritmo desacelera e duas pessoas descobrem que alguns encontros não precisam de espetáculo — apenas de presença para permanecer




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